segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Retrospectivas de uma introspecção

Imagina 30 cidades diferentes dentro de uma.

É o Rio de Janeiro.

Precisamente no dia 1 de Janeiro de 1502 o nosso puto Gaspar de Lemos chocou com a baía de Guanabara. Duzentos anos depois, D. Joao VI e a sua corte, mudaram-se pra lá com cagufa do senhor Junot.
8 naus, 3 fragatas, 3 brigues e 2 escunas (*fonte wikipedia). A esta altura já tavam os franceses a chillar no Cartaxo e a corte real toda em alto mar a beber caipirinhas e a comemorar.
Oh yeah. Tuga party a bordo duma nau, quem me dera ter estado lá pra ver.
E por aqui se fica.

O Rio não é Portugal.

O Rio é escravatura.

Ainda o é. Ainda se encontram pedaços desse mundo aniquilado nas partes rejeitadas da cidade.
Durante 7 dias vivemos no morro da Babilónia. Aprendi mais nestes 7 dias do que em 4 anos de faculdade. Sobre a arquitectura, sobre a vida.
Se ser arquitecto é privar as pessoas de construírem o seu lar, de escolherem o local onde vão acordar e deitar todos os dias, de saber quem mora ali ao lado, então, não quero ser arquitecta.
Criar lugares de ninguém para ninguém.

(calma mãe e pai eu vou acabar o curso, e provavelmente vou ser arquitecta, isto é só um desabafo não deitem as mãos à cabeça, ainda há esperança para mim)



Afinal o que é preciso para ser feliz? Sol, praia e música parece-me suficiente.
Eles têm tudo. No entanto, são escravos de uma ideia ocidental discriminadora, acerca do que é a qualidade de vida.
Os ricos moram em Copacabana, em caixas de betão, sem saber quem está por baixo ou por cima.
Os pobres, moram na montanha, numa comunidade onde todos se entre-ajudam e conhecem, com terraços virados para o oceano, em grandes vivendas, sem pintura, que eles próprios (ou os seus antepassados) construíram, com as suas mãos.

A 10 minutos da praia a 10 minutos do céu.

Podia ser o paraíso.





Mas não é.

Não é por causa da pobreza, por causa da rejeição social. Por causa da violência e da droga. Realidades sociais que se encontram um pouco por toda a cidade e em TODAS as cidades (não só aqui).

Na Babilónia a vida era tranquila, as pessoas gostam dos gringos porque eles (nós) trazem dinheiro para o seu bairro. É seguro. A única vez que me senti desconfortável e insegura foi quando chegámos ao hostel e havia um polícia de G3 encostado à parede. Nunca tinha visto uma arma tão grande nas mãos de um homem, podendo ser disparada a qualquer momento.
Como se pode combater violência com violência? Alguém tem que sair magoado. Uma criança não pode crescer rodeada de armas.

Não pode.

À sua volta tudo continuava tranquilo, a música tocava, os míudos jogavam à bola descalços, e os hamburguers XXXXXL com ovo estrelado, batata palha, 3 carnes, alface, queijo, bacon, tomate e milho continuavam a sair como se não houvesse amanha. (tudo isto pela módica quantia de 1,75euros). A música ecoava pelas ruas estreitas e apertadas, vinha em todas as direcções misturada com conversas e risos e cheirinho a comida boa por todo o lado.


Este foi o meu engate lá na Babilónia. Tão bom acordar assim.

Topo do morro.

A felicidade é só para os fortes. É encontrar a harmonia e a paz no meio da merda.
Porque no paraíso, qualquer um consegue.

Obrigado mãe e pai. eu sei que nunca vos vou conseguir agradecer decentemente o que têm feito por mim, mas pronto, é isto.


PS- tenho mais 6gigas de fotos, prometo que um dia destes as atiro praqui.

beijos

5 comentários:

  1. antes deste comentário o teu blog acenava "sem comentários" e apesar de agora ter este, o meu comentário vai ser "vazio".. porque não tenho comentários sobre o Rio. é daquelas coisas que só dá para perceber estando lá e visitando.. ou vivendo. acho que tem mais magia que qualquer sítio no mundo e infelizmente é uma cidade de contrastes visíveis muito grandes que vai muito além da política e da economia, já é um bocado de história que uns tentam contornar e outros ignorar.. entretanto, mais vale aproveitar enquanto podemos, enquanto ainda é habitável e visitável e esse pôr do sol acima vale mais que tudo! além disto, é a cidade perfeita para toda a gente: tem praia, tem montanhas e tem a metropolis..

    ResponderEliminar
  2. p.s. gostei desse en"gate". ;) e a foto da favela à noite está qualquer coisa. já nem falo da vista do morro.. essa fotografia consegue transmitir mais do que uma paisagem com uma série de pessoas.. dá-me saudades mas deixa-me feliz por saber que há coisas lindas neste mundo que temos a sorte de podermos apreciar. DESCULPA A LAMECHICE

    ResponderEliminar
  3. Fico contente por saber que a viagem dos teus sonhos esteja mesmo a sê-lo e faço votos para que te continue a iluminar de experiências e vivências táo ricas como estas. Só peço a Deus que te proteja sempre e que te inspire para continuares a ser a jovem linda e rica de valores que és!
    Poucas palavras para transmitir o que senti quando li o que escreveste: SAUDADES e ORGULHO. Obrigada filha por seres quem és!
    Nunca abdiques dos teus princípios, vai à luta!

    PS - Afinal os conhecimentos de História são muito importantes e ficam bem em todo o lado...:))

    ResponderEliminar
  4. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  5. Muito bonito o texto e fotos...inveja da boa aqui deste lado!

    Aproveitem meninas!
    Beijinhos do primo André!

    ResponderEliminar